Domingo, 6 de Maio de 2012

DIA DA MÃE...

É de fugir da vida louca que nós, as mães modernas deste século XXI, que não medimos as consequências daquilo que significa estar a ser mães de filhos únicos...ou de muitos filhos que em pouco tempo se vêm a tornar únicos, graças ao 'desamor' que lhes damos no pouco tempo que conseguimos ter para cada um deles...
É uma vida louca a que nós temos, pois temos de acordar ao romper da aurora,  delegando em  outras o cuidar dos nossos filhos quando saímos para trabalhar. E aquelas que cuidam dos nossos pimpolhos também têm em casa  os seus filhos, mas lá acabam elas por ser as mães que os nossos  não têm...
É loucura nossa o estar a ser mães por telefone a tempo inteiro, pois fazemos da nossa hora de almoço um momento para arrumar a lancheira e a bata de trabalho, arranjando algum tempo para recordar, junto das colegas de trabalho, como eram as mães do antigamente, que mandavam os filhos lavar as mãos,  escovar os dentes e ir fazer ó ó...
Que azáfama tremenda é a nossa vida, toda feita de corridas  com horários marcados para aqueles momentos em que tem de  ser a mulher, mãe, amiga, esposa, profissional, namorada... e isso somos mesmo muitas vezes, só que por vezes não conseguimos ser tudo...
Vivemos uma rotina que rotina que quase não conseguimos viver , porque o dia é um mistério constante para aquelas de nós que têm filhos, porque  nunca sabemos, afinal, se o dia que começou será o dia marcado para o miúdo ter uma dor de garganta inopinada, ou uma prova de matemática que lhe aparece de surpresa, ou para a zaragata com algum  amiguinho da escola, ou porque há aquela pesquisa sobre o sistema montanhoso que ele esqueceu de avisar...
Apenas constatamos que vivemos assim....
Acordamos... trocamos de roupa para ir trabalhar, esperamos pacientemente que a  mulher a dias não falte, olhamos o filho a dormir durante alguns minutos e sentimos vontade de ficar com ele, só por hoje, durante o dia inteiro, saímos de casa, despedimos-nos do filho, damos ordens e mais ordens à empregada, deixando-a meia perdida... vamos para o trabalho, somos profissionais, somos mulheres modernas, somos guerreiras, lutamos para vencer, fazemos a diferença no mundo profissional...
Ligamos ao longo do dia para marcar uma consulta no pediatra, fugimos a correr do local de trabalho para ir assistir a uma récita na escola, comemorativa do 'dia das mães', procuramos encontrar alguém que  nos possa ir buscar o  filho à escola, pois hoje há uma reunião na empresa e não podemos faltar... mas vai ter de contar com a sua mãe para lhe fazer esse grande favor...
Corre, preocupa-se, desdobra-se para que o dia passe rápido, pois ainda terá de chegar a casa para vêr se tudo está bem, supervisiona o banho, faz  mil e uma perguntas sobre o dia do seu filho, sente-se culpada por não ser uma mãe mais presente, daquelas com  tempo para brincar, dar atenção, cantar uma canção, ler uma história, assistir pela enésima vez  ao desenho animado da Disney preferido pelo filho... até acabar por adormecer ali, na cama de solteiro ou ao lado do berço, cansada... mas realizada por ter sido MÃE por mais um dia ...

Quarta-feira, 21 de Março de 2012

poesia portuguesa


Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...

Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim — ó ânsia! — eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases dourados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

.
Poema de
Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

Sábado, 8 de Outubro de 2011

POESIA PORTUGUESA


Cegueira Bendita
*
Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho...

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!...

E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros té à morte!

.
  in "A Mensageira das Violetas"

Domingo, 4 de Setembro de 2011

Poeta...por vezes!

DESVELOS
.
Quando vejo um passarinho
a abrir as suas asas
para cobrir o seu ninho...
...pois são estes as suas casas
onde nascem os filhinhos
que protegem com desvelos
enquanto são pequeninos...
...quanta ternura ao vê-los!
E lembro algumas mães
que não sabem o que é amor...
...tratam os filhos como cães,
fazem-lhes a vida um horror!
Os cuidados maternais
pedem amor e carinho...
...em quase  tudo iguais
ao pássaro que está no ninho!
E pode até ser poesia
pensar no amor maternal,
viver com tanta alegria
por esse dom divinal!
É bom saber-se amado,
sentir da mãe o carinho
todo o desvelo demonstrado
como o do pássaro no seu ninho!
.
Poema de Victor Elias

Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

POESIA PORTUGUESA


O PRINCÍPE PERFEITO
.
Vejo no mar caravelas
velas alvas enfunadas...
...com cruzes de Cristo, tão belas,
enormes, muito encarnadas!
Navegam  ao serviço de el-Rei
o Segundo João de Portugal
e levam padrões que são lei
em terras descobertas sem igual.
Vencem do mar toda a porcela,
mostrada naquelas ondas alterosas,
mas sentem que   é uma missão bela
ainda que esta seja bem perigosa!
Chegaram a S.Jorge da Mina...
...  por terra, às Terras do Prestes João,
a S.Tomé e Princípe, por Álvaro Caminha,
e o Boa Esperança foi passado então!
À Foz do Congo chegou Diogo Cão,
a Namíbia foi por fim alcançada...
...mas outros feitos são preparados,
que a morte  não deixa realizados.
Mesmo assim é o Rei digno de respeito
pela atenção que pôs no descobrimento,
de tal arte se tornou Princípe Perfeito
alguém que pôs o mundo em movimento!
Já antes se tentara o Bojador,
mas Gil Eanes não completa a missão...
...Bartolomeu vence o Mostrengo aterrador
e o Cabo é  Boa Esperança desde então!
O Rei D.João  2º. de Portugal,
venceu vísvicissitudes , mil traições,
mas como ele não houve outro igual
porque soube reinar nos corações.
Sim! O Povo estava a el-Rei unido:
  chegara a altura de se expandir no mar,
ir pelo mundo em pedaços repartido...
... e as nossas naus acabariam por chegar!
.
Poema de Victor Elias   
  

Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

POESIA...ao acaso.



AO SOL NASCENTE
.
Incansável velho louco, Sol atrevido,
Porque vens tu assim
Visitar-nos através de janelas por entre cortinas?
Devem as estações dos amantes obedecer a teus movimentos?
 Miserável, descarado e pedante, vai repreender
Estudantes atrasados e aprendizes azedos,
vai dizer aos monteiros que o rei sai a cavalo,
Chama as formigas rústicas para as colheitas.
Ao amor tudo é igual, não conhece estação, nem clima,
Nem horas, dias ou meses, que são os farrapos do tempo.
.
Aos teus raios, tão reverendos e fortes -
O que é que tu pensas? -
Posso eclipsá-los, enevoá-los, com uma piscadela,
Mas iria perdê-la de vista por demasiado tempo.
Se os olhos dela não cegarem os teus
Olha, e amanhã bem tarde diz-me
Se as duas Índias de especiarias e minas
Estão onde as deixaste, ou comigo aqui deitadas.
Pergunta por esses reis a quem viste ontem
E ouvirás: "Todos aqui numa só cama repousam."
.
Ela é todos os Estados e eu todos os Princípes,
Nada mais existe.
Os princípes apenas nos emitam. Comparadas com isto,
Todas as horas são mímica, toda a riqueza alquimia.
E tu, Sol, porque o mundo aqui se condensou,
Tens apenas metade da nossa felicidade.
A tua idade pede moderação, e como tens por dever
Aquecer o mundo, tal se cumpre em nos aquecendo.
Brilha aqui para nós e estarás em todo o lado,
Esta cama é o teu centro, estas paredes a tua esfera.
.
Poema de John Donne
in Poemas Eróticos